A chegada oficial da Lotus ao Brasil foi marcada pela apresentação de um carro que poucos imaginavam ver circulando oficialmente por aqui. Estou falando do Evija, hipercarro elétrico de 2.039 cv que representa o ápice tecnológico da fabricante britânica e que tem potencial para se tornar um dos automóveis mais caros já comercializados oficialmente no país. Mas, curiosamente, o Evija talvez não seja a notícia mais importante desta estreia.
O que realmente chama atenção é a forma como a Lotus decidiu desembarcar no mercado brasileiro. Em vez de apostar em um único produto ou em uma estratégia limitada a nichos específicos, a marca construiu uma operação capaz de atender diferentes perfis de clientes apaixonados por automóveis. Há espaço para quem deseja um esportivo clássico com câmbio manual, para quem busca um SUV elétrico de quase 1.000 cv e até para quem acredita que os veículos elétricos com extensor de autonomia representam uma solução mais racional para os próximos anos.
Lotus EVIJA – Superesportivo de 2.000 cv deve custar mais de R$ 50 milhões no Brasil
Foto de: Lotus
Estive presente no lançamento oficial realizado na Casa Fasano Usina, em São Paulo, e saí com a sensação de que a Lotus estudou cuidadosamente cada movimento antes de colocar suas peças no tabuleiro brasileiro. Nada parece ter sido feito por impulso. A escolha dos parceiros, a estratégia comercial e até mesmo a localização das futuras lojas seguem uma lógica bastante clara de posicionamento. A marca não pretende disputar volume nem entrar na guerra de preços que tomou conta de alguns segmentos premium. Seu alvo está em um território muito mais exclusivo, ocupado por clientes que valorizam autenticidade, raridade e experiência.
Essa estratégia ganha ainda mais força quando observamos quem está por trás da Lotus atualmente. Desde 2017, a fabricante britânica integra o grupo Geely, um dos maiores conglomerados automotivos do mundo. É o mesmo grupo responsável por marcas como Volvo, Zeekr e Smart, além de diversas operações globais de tecnologia, mobilidade e eletrificação. Na prática, a Lotus passou a combinar quase oito décadas de tradição em engenharia esportiva com a capacidade financeira e tecnológica de um dos grupos mais influentes da indústria automotiva mundial.

22
Fonte: Lotus
O resultado dessa combinação ficou evidente nos modelos apresentados durante o evento. Tive a oportunidade de observar os carros de perto e o nível de acabamento impressiona. Couro, alcântara, fibra de carbono e alumínio aparecem em abundância, mas sem ostentação desnecessária. Existe um cuidado perceptível nos detalhes, nos encaixes e na escolha dos materiais. São automóveis que conseguem transmitir exclusividade de forma natural, algo que muitas marcas tentam reproduzir, mas poucas efetivamente conseguem entregar.
O Emira é provavelmente o modelo que melhor conecta o passado e o futuro da Lotus. Com motor central e configuração de dois lugares, ele mantém viva a essência que consagrou a fabricante ao longo de décadas. A novidade é que a marca confirmou a chegada de duas versões ao Brasil. A primeira utiliza um motor quatro cilindros turbo associado a uma transmissão de dupla embreagem de 8 marchas. A segunda, e talvez mais interessante para os puristas, combina um motor V6 Supercharger com câmbios automático e manual de seis marchas. Em uma indústria que avança rapidamente para a eletrificação, ver uma fabricante confirmar a continuidade de um esportivo manual com motor V6 é quase um ato de resistência.
No extremo oposto do portfólio estão os modelos elétricos. O Eletre surge como um SUV de alto desempenho disponível em configurações de 612 cv ou impressionantes 918 cv. A arquitetura elétrica de 800 volts permite recargas ultrarrápidas, enquanto os 32 sensores destinados aos sistemas de assistência à condução revelam o foco tecnológico do projeto. O acabamento interno segue a mesma filosofia premium observada em toda a linha, incluindo materiais nobres, componentes em fibra de carbono e um sofisticado sistema de áudio desenvolvido pela KEF com tecnologia Dolby Atmos.
Já o Emeya talvez seja o carro que melhor represente a nova fase da Lotus, mas foi mostrado apenas virtualmente. Trata-se de um GT elétrico de quatro portas que combina desempenho brutal com níveis de refinamento dignos dos melhores sedãs de luxo do mercado. São 918 cv, 985 Nm de torque e um conjunto tecnológico que inclui eixo traseiro esterçante, suspensão adaptativa e uma cabine que mistura esportividade e sofisticação em doses muito bem calculadas.

Lotus EVIJA – Superesportivo de 2.000 cv deve custar mais de R$ 50 milhões no Brasil
Foto de: Lotus
E então chegamos ao Evija. Com 2.039 cv de potência, aceleração de 0 a 300 km/h em pouco mais de nove segundos e produção limitada a apenas 130 unidades para todo o mundo, o hipercarro funciona quase como uma vitrine tecnológica sobre rodas. Seu papel talvez não seja gerar volume ou participação de mercado. Ele existe para demonstrar até onde a engenharia da Lotus é capaz de chegar quando praticamente não existem limitações de orçamento ou desenvolvimento. Duas unidades serão destinadas ao Brasil, e misticamente, já se fala em valores em torno de R$ 50 milhões.

Lotus EVIJA – Superesportivo de 2.000 cv parece até carro conceito
Foto de: Lotus
Mas talvez o aspecto mais interessante da estratégia da marca esteja justamente no que ainda está por vir. A Lotus já confirmou planos para ampliar sua atuação no Brasil e pretende introduzir futuramente modelos equipados com tecnologia EREV, os chamados elétricos com extensor de autonomia. Nessa arquitetura, um motor a combustão atua exclusivamente como gerador de energia para alimentar as baterias, enquanto a movimentação das rodas continua sendo realizada pelos motores elétricos. É uma solução que vem ganhando força principalmente na China e que pode se tornar uma alternativa extremamente relevante para mercados que ainda enfrentam limitações de infraestrutura de recarga.




Fotos de: Motor1 Brasil
Fotos de: Motor1 Brasil
A decisão de reunir um esportivo quatro cilindros, um V6 manual, SUVs elétricos de quase 1.000 cv, um GT elétrico de luxo e futuros modelos EREV revela uma compreensão bastante madura do momento atual da indústria. “O mercado brasileiro tem apaixonados por automóveis de verdade, pessoas que entendem o que significa conduzir, não apenas se deslocar. Estamos aqui para oferecer a melhor experiência, respaldada por 78 anos de história, carros icônicos e produtos únicos”, disse Clemente Faria Jr., CEO da Lotus Cars Brasil.
Durante décadas, a Lotus foi admirada principalmente por entusiastas e engenheiros. Agora, apoiada pela estrutura global da Geely, a marca tenta transformar esse legado em uma operação global sustentável e relevante. O Brasil passa a fazer parte dessa estratégia justamente em um momento de expansão internacional.
Preços, versões definitivas e especificações completas para o mercado brasileiro serão divulgados posteriormente. Ainda assim, uma conclusão já parece inevitável. A Lotus não chegou ao Brasil para disputar espaço nas planilhas de volume. Chegou para ocupar um território muito mais difícil de conquistar: o do desejo.
Queremos a sua opinião!
O que você gostaria de ver no Motor1.com?
Responda à nossa pesquisa de 3 minutos.
– Equipe do Motor1.com