os carros do primeiro rival do Brasil na Copa de 2026

Em sua estreia na Copa do Mundo de 2026, o Brasil enfrenta o Marrocos. Depois de surpreender o planeta ao alcançar o quarto lugar no Catar, em 2022 (a melhor campanha de uma seleção africana na história dos Mundiais), os Leões do Atlas provaram que aquilo não foi obra do acaso.

Embora o Senegal seja o atual campeão da Copa Africana de Nações, o Marrocos é hoje amplamente visto como a seleção mais forte e mais bem estruturada do continente. Fora dos gramados, o país também vive um momento de protagonismo: tornou-se a maior potência automobilística da África.

A posição geográfica é um dos seus maiores trunfos. A apenas 14 quilômetros da Espanha, do outro lado do Estreito de Gibraltar, o reino de Mohammed VI transformou-se em uma plataforma industrial voltada para a Europa, que absorve cerca de 95% dos veículos exportados pelo país.

Em 2025, o Marrocos produziu aproximadamente 1 milhão de veículos e pretende alcançar os 2 milhões anuais até 2030. Nada mal para um país com 38 milhões de habitantes (apenas 18% da população brasileira). O mercado interno somou 235.372 automóveis e comerciais leves.

Há muito, o setor automotivo marroquino é dominado por dois grandes grupos: Renault/Dacia e Stellantis (principalmente por conta de Peugeot e Citroën). E isso tem uma explicação histórica.



SOMACA, anos 60 -Mini e Simca 1000 na mesma linha

SOMACA, anos 60 -Mini e Simca 1000 na mesma linha

Foto de: Divulgação

França no ataque

Embora tenha conquistado a independência em 1956, o Marrocos preserva uma forte herança do período do Protetorado Francês (1912–1956). A influência ainda se faz sentir em diversos aspectos da vida cotidiana, do uso disseminado do francês nos negócios e no ensino superior à organização das instituições públicas, passando pelas parcerias econômicas, pela imprensa, pela arquitetura e até por elementos da gastronomia local.

A França permanece entre os principais investidores e parceiros comerciais do Marrocos, apesar do avanço das relações com a Espanha, a China, os países do Golfo e outros mercados africanos.



SOMACA - berço da indústria automobilística marroquina

SOMACA – berço da indústria automobilística marroquina

Foto de: Divulgação

De SOMACA a Renault/Dacia

Em 1959, foi criada a SOMACA (Société Marocaine de Constructions Automobiles), em Casablanca, uma empresa de capital misto estatal com assistência técnica e participação acionária inicial da Fiat e da Simca.

A Renault entrou nessa história em 1966, quando assinou um acordo para também montar seus carros ali. Durante décadas, clássicos como o Renault 4, o Renault 12 e diversos modelos da Fiat (incluindo os 127 e 131) e até o Mini foram produzidos lado a lado na fábrica de Casablanca.

Em meados da década de 1990, o governo local tentou renovar a frota do país por meio de um programa de “carro popular”. A Fiat venceu a concorrência, passando a montar localmente o Uno e, posteriormente, a família Palio e Siena (enviados em kits do Brasil). A experiência durou até 2003, quando a marca italiana decidiu encerrar suas operações locais e vender sua participação.

O fim do acordo com a Fiat forçou o Marrocos a repensar sua estratégia. O governo privatizou a SOMACA, vendendo sua participação para a Renault, que assumiu o controle majoritário da fábrica em 2005.



O Kardian fabricado na Somaca

O Kardian fabricado na Somaca

Foto de: Divulgação

A Renault percebeu o potencial logístico do Marrocos para seu projeto de carros de baixo custo (plataforma Logan/M0). A SOMACA passou a produzir o Dacia Logan (2005) e o Dacia Sandero (2009), inicialmente para o mercado interno e logo depois para exportação a diversos países europeus.

O grande divisor de águas ocorreu em 2012, com a inauguração da gigantesca fábrica da Aliança Renault-Nissan em Tânger (Meloussa), de cara para o Estreito de Gibraltar. A unidade recebeu bilhões em investimentos e foi conectada diretamente ao porto de águas profundas Tanger Med por uma ferrovia exclusiva, de pouco mais de 20 km. Dali começaram a sair modelos como Dacia Lodgy, Dokker e as novas gerações do Sandero, elevando a capacidade produtiva do país a patamares globais.

Os preços são bem em conta: um Renault Kardian Iconic, que no Brasil custa R$ 150 mil, é vendido no Marrocos pelo equivalente a R$ 110 mil (em conversão direta), com o mesmo motor e nível de equipamentos semelhante.



O Peugeot 208 II inaugurou a fábrica de Kenitra, em 2019

O Peugeot 208 II inaugurou a fábrica de Kenitra, em 2019

Foto de: Divulgação

De PSA a Stellantis

A partir de 2014, o governo do Marrocos implementou um Plano de Aceleração Industrial (PAI). A estratégia focou na criação de “ecossistemas” de autopeças (fiação, estofaria, motores e estamparia). Isso acabou despertando o interesse de mais um grande fabricante de veículos.

A hegemonia da Renault foi quebrada com a abertura da fábrica do Grupo PSA Peugeot Citroën em Kenitra, a 40 km de Rabat, a capital do país. A unidade foi inaugurada em 2019, com a produção do Peugeot 208 II sobre a plataforma CMP. Depois vieram os pequeninos elétricos Citroën Ami e Opel Rocks-e.

A Stellantis incorporou a PSA em 2021 e continuou expandindo suas operações no país. O grupo adquiriu a Sopriam (antiga distribuidora exclusiva de Peugeot, Citroën e DS no Marrocos) e anunciou investimentos pesados para elevar a capacidade de Kenitra de 200 mil para 535 mil veículos por ano, visando também à produção de plataformas mais modernas.

Em vez de travar uma batalha cada vez mais difícil contra os altos custos de produção na Europa, o conglomerado comandado por Antonio Filosa vem deslocando o eixo de suas operações industriais para o Marrocos, transformado em sua principal base de exportação de veículos de baixo custo. 



O Citroën C3 é mais um modelo que entra em produção em Kenitra

O Citroën C3 é mais um modelo que entra em produção em Kenitra

Foto de: Divulgação

Recentemente, o CEO da Citroën, Xavier Chardon, anunciou o lançamento do novo C3 produzido no Marrocos e destinado aos mercados do Oriente Médio e do Norte da África.

E a Fiat, finalmente, voltará a ter um “carro de verdade” fabricado no Marrocos (o Topolino não conta…). A partir do segundo semestre de 2026, os Grizzly e Fastback sairão das linhas de montagem marroquinas não apenas para mercados emergentes, mas também para a Europa.

Para completar esse ecossistema de produção de baixo custo com um componente ambiental, a Stellantis inaugurou em Casablanca seu centro de economia circular, dedicado à desmontagem, ao reaproveitamento de peças e à reciclagem de veículos.



O microcarro elétrico chinês Sunshine M2  virou Neo Dial-E no Marrocos

O microcarro elétrico chinês Sunshine M2 virou Neo Dial-E no Marrocos

Foto de: Divulgação

Neo Motors e Laraki

Fora dos gigantes Renault e Stellantis, a única fabricante de automóveis de passeio do país é a pequena Neo Motors, de capital marroquino. Com capacidade para 5 mil veículos por ano, a empresa produz o jipinho Neo, com carroceria de fibra de vidro e motores PSA de três ou quatro cilindros. Boa parte do projeto foi compartilhada com um modelo da marca tunisiana Wallys (sim… é Wallys mesmo).

Mais recentemente, a Neo começou a montar também o microcarro urbano Dial-E, um elétrico chinês vendido como Sunshine M2 em alguns mercados.



Laraki Epitome 2008

Foto de: Divulgação

O Marrocos tem até uma marca própria de superesportivos: a Laraki, por puro capricho do projetista de iates de luxo Abdeslam Laraki. De tempos em tempos, ele desenha e monta um carro. O primeiro foi o Fulgura, baseado na estrutura do Lamborghini Diablo, mas com motor Mercedes-Benz V12 e quatro turbocompressores. Depois vieram o Bórac, o Epítome e o Saara (os dois últimos com mecânica Corvette).

O restante da indústria automobilística marroquina é formado por fabricantes de ônibus e caminhões.

 

Os titulares

Quem visita o Marrocos se surpreende com a quantidade de Renault e Dacia pelas ruas. Quase todos os táxis do país são Logan e Sandero. Entre os pequenos furgões, há uma infinidade de Kangoo. Não é um cenário dos mais variados. Lembra o reinado dos VW no Brasil dos anos 1970…

Correndo por fora, há muitos Peugeot e Citroën dos anos 1990 para cá (importados), Hyundai, Kia e Toyota, além de velhos Mercedes-Benz 190E e Fiat Uno. Os chineses ainda são raros, com um ou outro BYD ou picapezinhas Dongfeng.



Dacia Sandero III, o vice-líder de vendas no país

Dacia Sandero III, o vice-líder de vendas no país

Foto de: Divulgação

TABELA: Os mais vendidos no Marrocos (2025)

  1. Dacia Logan
  2. Dacia Sandero
  3. Renault Express
  4. Renault Clio
  5. Peugeot 208
  6. Renault Kardian
  7. Dacia Duster
  8. Hyundai Tucson
  9. Volkswagen T-Roc
  10. Fiat Topolino / Citroën Ami


As Mobylettes pegam peso e encaram o deserto

As Mobylettes pegam peso e encaram o deserto

Foto de: Divulgação

A terra da Mobylette


O que você pensa sobre isso?


Por fim, uma curiosidade: as velhas Mobylettes ainda são muito usadas no Marrocos. Estão por toda parte — até transportando cargas e cruzando as areias do interior do país. O modelo é o mesmo que a Caloi montou sob licença na Zona Franca de Manaus a partir de 1975 (daí o nome aportuguesado Mobilete). Sua fabricante original era a francesa Motobécane.

“Motobécane” e “Mobylette” viraram nomes genéricos para ciclomotor tanto em árabe quanto nas línguas bérberes. Já nos grandes centros, como Casablanca e Rabat, o favorito é o antigo rival Peugeot 103, produzido na França entre 1971 e 2006.

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