Miguel Crispim Ladeira (1940-2026), o mago dos motores DKW

A história do automobilismo brasileiro perdeu ontem (19/7) uma de suas grandes referências. Morreu Miguel Crispim Ladeira, o mago dos motores 2-tempos. Na década de 1960, ninguém no mundo conseguia extrair tanta potência dos pequenos DKW tricilíndricos de 1 litro. Como mecânico da Equipe Vemag, Crispim pôs esses carros para brigar de igual para igual com modelos muito maiores, até carreteras com V8 de Corvette.

Crispim nasceu em Campinas (SP), em 1940, e desde garoto demonstrava curiosidade e talento para a mecânica. Aos 12 anos já era um aplicado aluno do curso de Mecânica de Motores a Explosão da Escola Técnica Getúlio Vargas, em São Paulo. Dali saiu para trabalhar em oficina e servir ao Exército, onde logo foi recrutado para cuidar de viaturas tão variadas quanto Jeep Willys, caminhões GMC e o trator de artilharia Minneapolis-Moline.

Adepto não só da prática, mas também da teoria, o jovem Crispim deu baixa do serviço militar e foi contratado para o departamento de testes da Vemag, companhia de capital nacional que produzia aqui os automóveis da marca alemã DKW.

Jorge Lettry, responsável pelo desenvolvimento dos produtos da Vemag, era um entusiasta das corridas. Via nelas o melhor laboratório para aprimorar os automóveis nacionais, então uma novidade. De quebra, serviam como um poderoso instrumento de propaganda. 

Em 1961, Crispim foi incorporado como chefe dos mecânicos do recém-criado departamento de competições da Vemag, que tinha Lettry como chefe de equipe. Essa dupla fez história em uma das épocas mais brilhantes do automobilismo nacional.

A Equipe Vemag foi a primeira escuderia oficial de um fabricante no Brasil e tinha ases como Bird Clemente (que, mais tarde, foi para a Equipe Willys). Com a imaginação, a inteligência e os incansáveis testes de Crispim e Lettry, os carros ganhavam desempenho, e não era apenas na preparação dos motores.

Os pesados sedãs DKW foram ficando cada vez mais leves. As longarinas eram aliviadas ainda na linha de produção, antes da soldagem final do chassi. Um dos carros mais marcantes da época foi a carretera Mickey Mouse, um DKW Belcar encurtado e rebaixado.

Mas era preciso aliviar ainda mais. A equipe oficial da Vemag, então, encomendou a Rino Malzoni três carrocerias do esportivo GT Malzoni para a temporada de 1965.

Os carros de fibra de vidro foram entregues à Vemag ainda no fim de 1964. Lá, ganharam chassis bem aliviados e motores DKW muito envenenados: com apenas 1.080 cm³, rendiam 106 cv (sem apelar para turbocompressor). Nem na Alemanha, sede da Auto Union, conseguiam potência semelhante à dos motores preparados por Crispim.

Nas 35 corridas de que participaram, entre 1964 e 1968, os Malzoni obtiveram 12 vitórias contra importados de primeira linha, como Alfa GTA e Alpine A110. Ou seja: ganharam nada menos que 34% das provas.

Entre os pilotos da DKW, destacaram-se o paulista Marinho e o carioca Norman Casari. Este, aliás, estava ao volante em um dos mais belos momentos da história da Vemag. A empresa já agonizava quando Lettry resolveu fazer um carro aerodinâmico especialmente para bater recordes de velocidade. Chamado de Carcará, o bólido alcançou 212,9 km/h numa reta então deserta da Barra da Tijuca, em junho de 1966. Toda a preparação contou com o talento de Crispim.



Jan Balder, piloto nas 1000 Milhas de 1966, e Crispim (foto de Jason Vogel)

Jan Balder, piloto nas 1000 Milhas de 1966, e Crispim (foto de Jason Vogel)

Foto de: Divulgação

Mesmo quando não ganhavam, os carros feitos por Crispim protagonizavam corridas épicas. Foi o caso da participação nas Mil Milhas Brasileiras de 1966, em Interlagos. Emerson Fittipaldi e Jan Balder, então novatos, com 19 e 20 anos, pilotavam o GT Malzoni número 7. Mesmo com o mais fraco dos Malzoni inscritos, os garotos lideravam a prova de longa duração com grande margem sobre o segundo colocado, a mítica carretera Chevrolet V8 dos experientes Camillo Christófaro e Eduardo Celidônio.

Após 14 horas de corrida, e faltando poucas voltas para o final, um dos três cilindros do motor DKW começou a falhar. Nos boxes, foi feita a troca da vela com problema e, mesmo assim, a falha voltou. Com apenas dois cilindros funcionando, Balder conseguiu receber a bandeirada em terceira colocação, mas como campeão moral da corrida.

A essa altura, a Equipe Vemag nem existia mais. Mesmo assim, os Malzoni, reunidos na Equipe Brasil, chefiada por Crispim, terminaram a prova em segundo, terceiro e quarto lugares.

“Ele foi um cara muito importante da era de ouro em que o automobilismo brasileiro floresceu. Na Equipe Brasil, do Crispim, correram Emerson Fittipaldi e José Carlos Pace, que dali a algum tempo estariam na Fórmula 1”, resume o jornalista Flavio Gomes, grande amigo do preparador.



O lançamento da autobiografia em 2025 (Foto - Bob Medeiros)

Foto de: Divulgação

Pós-Vemag

Engana-se quem pensa que Crispim só fez milagres com motores 2-tempos. Nos anos 70, depois do fim da Vemag, ele obteve muitos êxitos com os 4-tempos. Era, simplesmente, o melhor preparador de carros de corrida do Brasil e um raríssimo exemplo de homem negro no automobilismo nacional, como se percebe pelas fotos da época.

Crispim deu apoio mecânico ao Puma de Jan Balder, vencedor do Rally da Integração Nacional (1971). Também foi coordenador técnico da Equipe Z, de Anísio Campos e Luiz Pereira Bueno, depois batizada de Equipe Hollywood, chegando a afinar o motor flat-8 do lendário Porsche 908/02. Também foi sócio da Equipe MotoRádio, de Fórmula Ford e Super-Vê.

E não era só nas competições que Crispim atuava: ele inventou ferramentas e até ajudou a criar o buggy Kadron. Teve oficinas e chegou a trabalhar na fábrica de carros esportivos Lobini, fundada em 1999.

Nos últimos anos, já aposentado, para matar a saudade dos motores 2-tempos, Crispim cuidava dos carros da coleção de Flavio Gomes.

“Ele ia a todos os Blue Cloud, encontros de DKW, e em todos era reverenciado pela turma. Dava aulas. Contava histórias espetaculares do automobilismo e da vida. Ele não passava um dia no galpão sozinho. Todo dia algum amigo o visitava”, conta Flavio.

Até o fim do ano passado, Crispim manteve-se saudável e lúcido, sempre com sua voz forte. De janeiro para cá, a situação desandou. Foi um entra e sai de UTIs até sua morte, aos 85 anos, na madrugada deste domingo.

“Se perguntar o que ele teve, eu não sei. Eram vários problemas”, lamenta o amigo.

O que você pensa sobre isso?

O jornalista Bob Medeiros entrevistou Crispim ao longo de dois anos. O material foi reunido e transformado na autobiografia Nasci mecânico, lançada em agosto do ano passado.

“Ele tinha noção exata de sua grandeza nas corridas dos anos 60 e 70. Passou toda a vida recebendo os reconhecimentos mais variados, mas nunca perdeu a humildade. Sempre fazia questão de destacar as pessoas com quem trabalhou. Era de uma grandeza enorme.”

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