O McLaren F1 foi o primeiro carro da marca britânica homologado para andar em vias públicas. Projetado por Gordon Murray e Peter Stevens, o modelo de três lugares com direção central fez história: foi o GT mais rápido de seu tempo e teve somente 106 exemplares produzidos entre 1992 e 1998.
O que pouca gente sabe é que, muitos anos antes, mais precisamente em 1969, o jovem piloto e construtor neozelandês Bruce McLaren já havia concebido um superesportivo de rua. Ou, como descreveu, “a versão civilizada de um carro de competição”: o M6GT.
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Fonte: Divulgação
Das pistas para as ruas
Essa história começa com o M6A-Chevrolet, protótipo aberto com o qual Bruce McLaren e Denny Hulme dominaram a Can-Am Challenge Cup em 1967, superando carros como o Lola T70, Chaparral 2G e Ferrari 330 P4. Foi naquele campeonato que a equipe usou pela primeira vez a cor laranja Papaya, desde então uma marca registrada da McLaren.
O plano de Bruce era fazer também um GT fechado para disputar o antigo Campeonato Mundial de Resistência (World Sportscar Championship), incluindo as 24 Horas de Le Mans, contra pesos-pesados como Ford GT40, Ferrari 512 e Porsche 917. Para tanto, seu carro deveria ter uma versão homologada para as ruas — algo que Bruce já pensava em produzir.
Assim, a partir de um brutal carro de corridas sem teto (do antigo Grupo 7 da FIA), a McLaren criou um GT de rua baixíssimo, leve e aerodinâmico, com faróis escamoteáveis e portas borboleta. Graças ao motor V8 central, alimentado por quatro carburadores Weber 48 de corpo duplo, seria capaz de acelerar de 0 a 160 km/h em 8 segundos e alcançar 265 km/h. Para se ter uma referência atual, seria como produzir um Hypercar do WEC apto a ser emplacado…

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No meio do caminho, porém, a FIA aumentou de 25 para 50 o número de exemplares de rua necessários para a homologação. Mas o pior ainda estava por vir: em 2 de junho de 1970, o multitalentoso Bruce McLaren morreu enquanto testava o carro de corridas M8D Can-Am no circuito de Goodwood, na Inglaterra. Tinha apenas 32 anos.
Com o acidente, o projeto do M6GT ficou pelo caminho depois de apenas três protótipos construídos. O exemplar mais famoso — de placa britânica OBH 500H — era o carro de uso diário de Bruce e existe até hoje.

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De volta para o futuro
Passados 57 anos, essa história interrompida ganha uma continuação. Em pleno 2026, a McLaren Special Operations (MSO), divisão de projetos especiais, personalização e preservação histórica da McLaren Automotive, construiu um M6GT.
Não se trata de uma réplica ou releitura moderna, mas de um exemplar que segue à risca os planos originais do fundador Bruce, com base em documentos preservados no acervo da marca.
A descoberta dos moldes originais da carroceria ajudou a deixar tudo ainda mais correto historicamente. Assim, a MSO pôde reproduzir as formas do M6GT nas dimensões corretas, incluindo pequenas mudanças feitas durante o desenvolvimento do carro nos anos 1960.
O ponto de partida foi o chassi original de um M6A de corrida, meticulosamente restaurado. Ao redor dessa estrutura, tudo foi feito artesanalmente na sede da MSO, em Surrey, a 30 km de Londres. As partes “escondidas” — estrutura de suporte traseira, reforços internos, santantônio e chicote elétrico — tiveram o mesmo acabamento caprichado das que ficam visíveis.

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Para recriar o para-brisa, foi preciso escanear a peça original e enviar os dados a um especialista, que produziu o novo vidro.
A suspensão usa peças originais do M6GT, restauradas uma a uma. Algumas exigiram rolamentos em medidas imperiais, fora dos padrões usados hoje pela indústria. Até os rebites de alumínio com cabeça abaulada seguiram o tipo empregado no carro original e foram instalados com a ajuda de especialistas da indústria aeronáutica.
Como o original, o M6GT usa um V8 Chevrolet small-block de 5,7 litros e 370 cv, acoplado a um câmbio manual de cinco marchas. O motor recebeu cabeçotes de alto desempenho específicos da época, conhecidos como “camel hump” ou “double hump” (corcova de camelo ou dupla corcova). Esse apelido vinha de uma marca existente na parte frontal dos cabeçotes, com duas saliências arredondadas.
No interior, nada de telas de LCD, fibra de carbono ou nostalgia pasteurizada. A empunhadura da alavanca de câmbio foi torneada à mão em nogueira maciça. Os bancos receberam vinil feito sob medida, com costuras seladas a quente.
A pintura também tem história. O tom “branco cremoso” foi batizado de Colnbrook, referência à localidade onde funcionou uma das primeiras bases da McLaren, perto do aeroporto de Heathrow (assim, perdia-se menos tempo nos deslocamentos entre as corridas).
A combinação com o interior verde-escuro remete ao M2B, o primeiro Fórmula 1 da McLaren, que correu na temporada de 1966.
Foram cerca de 3 mil horas de trabalho — e nem tudo saiu dos arquivos. Antigos mecânicos e projetistas que trabalharam diretamente com Bruce McLaren participaram do projeto e ajudaram a preencher lacunas que desenho técnico algum resolveria.
Os veteranos relembraram histórias de como desenharam a manga de eixo traseira do carro original inspirados em uma banana, na salinha de chá da Engenharia. Hoje, a McLaren vive de simuladores, computadores e túneis de vento. Mas o carro deixa claro que algumas ideias vieram de muito antes: baixo peso, motor central, boa visibilidade para o motorista e tecnologia de pista adaptada para a rua.
Oficialmente, a produção do M6GT na MSO se restringirá a essa única unidade — afinal, não há tantos chassis originais dando sopa por aí.
“Este carro ocupa um lugar único em nossa coleção — uma homenagem aos primórdios da empresa e um aprendizado sobre seu espírito para o futuro”, diz Jon Simms, diretor da MSO.
A McLaren fez um enorme investimento em conhecimento técnico e no desenvolvimento de fornecedores para um único carro. Quem sabe não vem bem aí uma série “continuation”?

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Estreia no Goodwood FoS
Esse M6GT recriado fará sua estreia no Goodwood Festival of Speed, entre 9 e 12 de julho. A McLaren reunirá no evento uma impressionante seleção de clássicos, do Austin 7 Ulster ao M8 — respectivamente, primeiro e último carros pilotados por Bruce McLaren.
O evento também será palco da estreia pública do MCL-HY, nova máquina de competição da McLaren Racing, desenvolvida para disputar as 24 Horas de Le Mans e o Campeonato Mundial de Endurance em 2027.
O britânico Lando Norris, atual campeão da Fórmula 1, estará com o público para comemorar a conquista do título no ano passado, enquanto uma seleção de carros históricos de F1 da McLaren percorrerá a famosa subida de Goodwood.
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