Depois dos SUVs, chineses agora apostam nas peruas

Durante muito tempo, as station wagons – ou peruas, como preferir – representaram o lado racional dos automóveis. Quer o rodar de um sedã com a versatilidade ainda maior do que a de um hatch? Eis sua opção. Em comum, todas compartilhavam quatro coisas: teto longo, traseira quase vertical, um grande terceiro vidro lateral e um volume traseiro bem assumido, sem constrangimento.

O tempo, no entanto, foi pouco generoso com elas. Antes presentes desde compactos até modelos grandes, acabaram virando um produto de nicho, focando principalmente o mercado europeu. Mas, até mesmo por lá, as peruas têm dado cada vez mais espaço aos SUVs nos últimos anos.

O efeito China

Quando tudo parecia acabado, quem diria, a China resolveu que dava para investir em modelos maiores que sedãs, mas que não necessariamente sejam SUVs por si só. O espaço continua lá, mas agora passa a ficar ‘escondido’ em silhuetas bem mais baixas, tensas e contínuas, quase esportivas, nas quais a linha entre perua, cupê e shooting brake fica cada vez mais sutil.

A Lynk & Co 07 GT, por exemplo, segue esse caminho. Partindo do sedã 07, ela alonga o teto sem transformar a traseira em um simples volume acrescentado; a coluna traseira inclina, o vidro traseiro se estende e a lateral conduz o olhar para trás com um movimento contínuo.

 

Numa perua tradicional, a capacidade de carga – e o volume traseiro – aparece de imediato; aqui, porém, o volume é absorvido pela forma. A carroceria segue longa e funcional, mas rodas grandes, bitolas visualmente largas e detalhes aerodinâmicos a aproximam mais de um esportivo de quatro portas, os GT, do que de uma familiar clássica.

Também é interessante o papel dos designers que atuam dentro do amplo conglomerado da Geely – que inclui Volvo e Polestar -, mas que construíram para a Lynk & Co uma identidade própria, mais jovem, tecnológica e esportiva, com um posicionamento premium distinto do restante do grupo.



2026 Pelo menos 001

A Zeekr 001 tem proporções mais compactas e mistura traços de crossover e perua esportiva, com altura menor que a de um SUV

Fotos de: Andrei Nedelea



Nio ET5 Touring: dias ao ar livre

A Nio ET5 Touring é facilmente reconhecida pelo amplo compartimento de carga, mas mantém linhas fluidas e aerodinâmicas que reforçam sua proposta moderna

A traseira não precisa mais fazer tudo

O desenho da Zeekr 001 leva essa transformação ainda mais longe: a linha de cintura alta, o teto baixo e o vidro traseiro bem inclinado tornam difícil dizer onde termina o fastback e onde começa a perua. O espaço existe, mas já não domina a leitura do carro.

Já a Nio ET5 Touring mantém uma estrutura claramente de perua, com teto mais regular e traseira bem definida, mas trabalha com superfícies limpas e com a continuidade entre a lateral e a tampa do porta-malas; é uma wagon moderna, não um sedã ao qual simplesmente foi acrescentado um bagageiro.



Volkswagen Passat Variant 2024

A Passat europeia, desenvolvida em conjunto com a Skoda Superb, hoje é vendida apenas como station wagon e mantém uma configuração bem tradicional, com linhas fluidas e grande capacidade de carga



Toyota Corolla Touring Sports Hybrid

A Toyota Corolla Touring Sports segue como um exemplo clássico da categoria, com linhas mais afiladas e foco claro na capacidade de carga

Europa ainda mostra a função

Passat Variant e Skoda Superb Wagon representam a linguagem mais clássica da categoria: teto quase horizontal, terceiro vidro amplo, coluna traseira pouco inclinada e tampa traseira mais vertical. Suas proporções não escondem a vocação familiar; elas transformam suas medidas em algo elegante e, veja só, nem sequer contam com versão sedã na variante vendida pela Volkswagen.

Na Toyota, o Corolla em versão Touring Sports traz mais tensão visual, com teto arqueado e traseira mais dinâmica, sem perder a leitura típica de perua – e com uma carroceria mais “encorpada” do que a do Corolla sedã. São carros que buscam equilíbrio entre espaço e estilo, enquanto as novas chinesas avançam de forma mais decidida para a espetacularidade.



BYD Seal 6 DM-i PHEV

A BYD Seal 6 se mantém próxima de uma perua tradicional, derivada diretamente do sedã, com traseira mais vertical; modernidade vem do tratamento das superfícies, da limpeza das laterais e da assinatura luminosa contínua

Foto de: Motor1 Brasil



Denza Z9 GT

Para a Z9GT, a equipe de design liderada por Wolfgang Egger optou por uma station wagon longa e muito baixa, com forte apelo esportivo

Foto de: Thomas Tironi

O meio termo

A BYD Seal 6 Touring permanece próxima de uma perua tradicional, com traseira relativamente vertical e teto pensado para não sacrificar tanto o volume; sua modernidade vem sobretudo do tratamento das superfícies, da limpeza das laterais e da continuidade da assinatura luminosa.

Para a Denza Z9GT, modelo premium do universo BYD, foi escolhido o extremo oposto: capô longo, cabine recuada, teto afilado e traseira larga transformam a capacidade de carga em elemento secundário. Não parece uma perua tornada esportiva, mas uma granturismo à qual foi concedido mais espaço.

Uma forma ocidental com uma nova ambição


O que você pensa sobre isso?


O termo station wagon surgiu ainda na época das carruagens e era usado para designar veículos destinados ao transporte de passageiros e bagagens entre as estações de trem e seus destinos finais. Na Europa, mais tarde, o conceito evoluiu para as peruas (familiares), com enorme sucesso, algo que foi replicado até meados dos anos 80 e 90 também na América do Sul.

Dito isso, a China não está fazendo renascer uma carroceria que desapareceu: está redesenhando essa proposta. O teto fica mais baixo, o vidro traseiro inclina e o espaço deixa de ser exibido; depois de anos de SUVs, uma perua como a Lynk & Co 07 GT não precisa ser alta para parecer moderna e pode fazer o interesse do público voltar a uma categoria até então abandonada.

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