depois da Nissan na África do Sul, a JLR no Reino Unido

A Chery está adotando uma estratégia pragmática para crescer fora da China: aproveitar fábricas já existentes, muitas delas subutilizadas por fabricantes tradicionais. A tática reduz investimentos iniciais, encurta prazos e ajuda a contornar barreiras comerciais em mercados-chave, ao mesmo tempo em que preserva empregos e cadeias produtivas locais.

Em abril de 2024, a Chery tornou-se a primeira companhia chinesa a fabricar veículos na Europa Ocidental. Sua chegada à Espanha se deu por meio de uma joint venture com a empresa local EV Motors, proprietária da histórica e ressuscitada marca Ebro. O grupo assumiu a antiga fábrica da Nissan em Barcelona, fechada desde 2021, passando a montar SUVs no local.

Agora, a Chery confirma a aquisição das instalações da Nissan em Rosslyn, na África do Sul. Inaugurada em 1966, a fábrica vem operando muito abaixo de sua capacidade nos últimos anos. A conclusão do negócio é esperada para meados de 2026, ainda condicionada a aprovações regulatórias, e envolve terrenos, prédios e a unidade de estamparia. A promessa é de que a maior parte de seus 1.080 trabalhadores seja mantida, garantindo a continuidade da operação e dos fornecedores locais.

A queda da produção em Rosslyn teve início após a saída de linha, em março de 2024, da Nissan NP200 — uma picape compacta derivada do Renault Logan. Por 16 anos, a picapinha fez sucesso no mercado sul-africano, dominando o segmento de veículos comerciais de meia tonelada. Havia planos de lançar uma sucessora, que seria desenvolvida na Rússia a partir da nova geração do Logan.



Nissan NP200

Foto de: Divulgação

“Infelizmente, devido à situação geopolítica na Rússia, tivemos de cancelar o projeto”, afirmou à época Maciej Klenkiewicz, então diretor da Nissan na África do Sul.

Em outubro de 2022, a aliança Renault-Nissan anunciou sua saída da Rússia. Cerca de um ano depois, a Nissan África do Sul revelou que havia oficialmente entrado em uma “fase formal de consulta para reestruturar o negócio”.

Desde então, restou em Rosslyn apenas a montagem da Navara (Frontier), em números insuficientes para manter a viabilidade econômica da fábrica. A produção local será encerrada em maio próximo, e a Navara passará a ser importada da Tailândia.



Os trabalhadores da Nissan em Rosslyn

Os trabalhadores da Nissan em Rosslyn

Foto de: Divulgação

Rosslyn tem peso relevante na história da Nissan e da indústria automobilística sul-africana. Ao longo de quase seis décadas, a fábrica produziu modelos como as picapes 1200/1400 e a NP300 Hardbody. Em 2019, a marca japonesa chegou a investir pesado na modernização da unidade para viabilizar a produção da nova geração da Navara (D23), iniciada em 2021.

Sob controle da Chery, a fábrica de Rosslyn ganhará uma nova função industrial, embora a empresa ainda não tenha confirmado qual modelo será produzido na unidade. A expectativa é de que a produção fique concentrada em um SUV. Com isso, a Chery se tornará o terceiro fabricante chinês com produção local na África do Sul, ao lado da BAIC e da Foton.



Uma das linhas de produção da JLR

Uma das linhas de produção da JLR

Foto de: Divulgação

Negociações com a Jaguar Land Rover

Em paralelo, no Reino Unido, há conversas preliminares para que a Chery utilize uma fábrica pertencente à Jaguar Land Rover, aproveitando a capacidade disponível nas linhas do grupo britânico. Segundo o jornal econômico Financial Times, essa possibilidade vem sendo tratada em nível governamental e deve integrar a agenda de uma futura visita oficial do primeiro-ministro Keir Starmer à China, indicando respaldo político às negociações.

Para o governo britânico, atrair novos projetos industriais é essencial para recuperar volumes de produção e sustentar a combalida cadeia automotiva local. Para a Chery, produzir no Reino Unido pode significar redução de custos logísticos, queda de tarifas e reforço da presença de marcas como Omoda e Jaecoo, que vêm crescendo rapidamente no mercado inglês.

Um eventual novo acordo entre a JLR e a chinesa Chery é visto por analistas do setor como um dos caminhos para que o Reino Unido se aproxime da meta governamental de produzir 1,3 milhão de veículos por ano até 2035 — quase o dobro das 738 mil unidades de 2025 (o pior resultado desde 1953, excluindo-se os anos da Covid-19).

Paralelamente, a fabricante britânica se recupera de um severo ataque cibernético ocorrido no verão passado, que gerou perdas expressivas e paralisou por mais de um mês as fábricas de Halewood e Solihull, hoje novamente em operação. Incluir alguns modelos da Chery em suas linhas de produção poderia ajudar na economia de escala e na redução do custo médio por veículo.

Controlada pela indiana Tata Motors, a JLR já mantém uma joint venture com a Chery: em 2024, acertou o licenciamento da marca Freelander para o desenvolvimento de elétricos baseados na plataforma do grupo chinês.

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