estudo mostra efeitos de lidar com angústia alheia

A convivência com uma pessoa em sofrimento pode se transformar em uma dor “compartilhada”. É o que demonstra uma pesquisa científica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), publicada recentemente em uma revista científica internacional.

Desenvolvido pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), em Araraquara, no interior de São Paulo, o estudo revelou que indivíduos saudáveis que ficam com parceiros em condição de angústia crônica passaram a apresentar alterações consideráveis, mesmo sem qualquer lesão física.


Como o estudo da Unesp foi feito

  • Os pesquisadores trabalharam com cerca de 40 ratos, divididos entre machos e fêmeas, que foram alojados em pares do mesmo sexo ainda jovens.
  • Após um período para formação de vínculo entre os animais, apenas um dos indivíduos de cada dupla foi submetido a uma cirurgia que induz dor neuropática crônica. O outro permaneceu fisicamente saudável, mas continuou convivendo com o parceiro em sofrimento.
  • Duas semanas depois, quando a dor já estava estabelecida, os cientistas passaram a avaliar o chamado “animal observador”, que não havia sido lesionado.
  • Foram realizados testes comportamentais e fisiológicos, por meio de estímulos mecânicos.

Segundo a pesquisadora Lígia Tavares, pós-doutoranda da FCF, a pesquisa avança sobre aspectos ainda pouco explorados na literatura científica.

“Estudos anteriores já apontavam indícios de alterações comportamentais. No nosso trabalho, além de incluirmos fêmeas, que ainda aparecem muito pouco nas pesquisas sobre esse tema, ampliamos a investigação para além do comportamento. Também avaliamos respostas cardiovasculares, uma área em que praticamente não existem estudos utilizando esse modelo”, afirmou a autora.

Efeitos da “dor compartilhada” no organismo

Os resultados, divulgados na revista Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry, provam que lidar com o sofrimento do outro pode desencadear efeitos físicos e emocionais significativos.

Quem permanece ao lado de parceiros em dor crônica apresenta níveis mais altos de ansiedade. Também foi observado alto impacto na percepção da dor.

Além disso, os pesquisadores identificaram mudanças fisiológicas relevantes, como alterações cardiovasculares e aumento da resposta hormonal ao estresse. As diferenças de gênero também chamaram atenção, com maior vulnerabilidade cardiovascular e endócrina nas fêmeas.

Para o professor Carlos Crestani, vice-diretor da FCF e supervisor do estudo, os achados reforçam a dimensão do fenômeno da “dor compartilhada”. “O animal que apenas convive com outro em dor passa a apresentar praticamente o mesmo quadro de sensibilização dolorosa do animal lesionado, mesmo com seu sistema nervoso periférico totalmente saudável”, disse.

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