A reunião da cúpula da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), realizada na transição de agosto para setembro de 2025, reuniu em Pequim os presidentes da Rússia, da Índia e da China, tendo o líder chinês Xi Jinping como anfitrião. A OCX é uma aliança militar que, além de China e Índia, integra também algumas nações da Ásia Central, como o Cazaquistão e o Uzbequistão. Assim como a OTAN representa o bloco militar que une os Estados Unidos e seus principais aliados do Atlântico Norte, a OCX configura-se como a aliança militar do Oriente, atualmente capitaneada pela China e pela Rússia — sobretudo pelo cada vez mais poderoso Estado chinês, que hoje desafia abertamente os Estados Unidos pela hegemonia global.
Fundada em junho de 2001, a OCX por muito tempo teve pouca representatividade no cenário geopolítico mundial. Diferentemente da OTAN, que sobreviveu ao dualismo ideológico e político da Guerra Fria e manteve-se ativa nas décadas posteriores à queda do Muro de Berlim, a aliança militar oriental enfrentava muitas divergências internas para tornar-se efetiva. Por exemplo, embora fossem rivais naturais das potências ocidentais representadas pelos Estados Unidos e pelas antigas nações colonialistas europeias, Rússia e China nunca foram plenamente alinhadas, nem mesmo durante o período em que integravam o bloco comunista na Era Bipolar. A semelhança de regimes e a desconfiança em relação ao Ocidente não superavam a rivalidade e o incômodo derivado da proximidade geográfica e da disputa por áreas de influência. Por sua vez, a Índia também carrega tensões históricas com a China, sobretudo pela questão do Tibete, que reivindica independência de Pequim e conta com apoio ou, ao menos, simpatia indiana.
Entretanto, no cenário atual, os interesses comuns parecem se sobrepor às divergências. Em grande parte, a própria política externa do atual governo dos Estados Unidos tem contribuído para essa aproximação. Do ponto de vista diplomático, Xi Jinping não poderia ter escolhido momento mais oportuno para consolidar sua liderança e fortalecer parcerias estratégicas. A cúpula da OCX evidenciou não apenas a prontidão e o elevado nível da capacidade militar chinesa, mas também sinalizou ao Ocidente a existência de um bloco apto a rivalizar política e militarmente com a até então hegemônica OTAN.
Isoladas pelas potências ocidentais, Rússia e Índia mostram-se cada vez mais dispostas a alinhar-se ao “Império do Meio”. No caso russo, desde a anexação da Crimeia em 2014, o país vem sofrendo sanções e retaliações econômicas, tendo sido excluído de fóruns como o G7 e forçado a reestruturar sua economia para reduzir tais impactos. A situação se agravou com a invasão da Ucrânia em 2022, levando Moscou a aprofundar seu distanciamento do Ocidente e a buscar maior cooperação com a China.
No que diz respeito à Índia, que poderia atuar como contrapeso aos protagonistas da ordem oriental, as ações de Donald Trump foram determinantes para aproximar o governo de Narendra Modi de Pequim e Moscou. A estratégia do ex-presidente norte-americano, marcada por agressividade e confrontos comerciais, acabou favorecendo os interesses chineses, ao facilitar a cooptação de países que se sentiram rejeitados ou hostilizados por Washington. A retomada e a ampla visibilidade da reunião da OCX demonstram, portanto, a intenção chinesa de se afirmar como protagonista de uma nova ordem mundial.
Além da dimensão militar, a China atua em diversas frentes para consolidar seu poder. No campo monetário, a criação do Banco dos BRICS representa uma alternativa às instituições financeiras de Bretton Woods, como o FMI e o Banco Mundial, ameaçando diretamente a hegemonia do dólar, vigente desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Por meio da Nova Rota da Seda e de vultosos investimentos em infraestrutura, transportes, mineração e indústria, que se estendem da Eurásia à África e à América Latina, Pequim consolida também sua dominação econômica e produtiva.
Tudo indica, portanto, que uma nova era mundial está em curso, tornando cada vez mais difícil imaginar que o século XXI se encerre ainda sob a bandeira hegemônica dos Estados Unidos da América.

Thiago Brito Steckelberg
Especialista – Direito Internacional